Por Vanessa Sensato, diretora de Estratégia e Inovação da Sabiá
Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial, Vannevar Bush enviou ao presidente dos Estados Unidos o célebre relatório Science, The Endless Frontier. O documento defendia um modelo linear para a inovação: o governo deveria financiar a pesquisa básica nas universidades e, a partir desse conhecimento puro, o mercado naturalmente colheria os frutos em forma de novos produtos e empregos. Essa visão pavimentou o ecossistema científico global e, décadas mais tarde, inspirou ICTs e universidades a investirem pesado na proteção de sua propriedade intelectual. O problema é que, no cenário real da inovação, essa engrenagem não gira por gravidade. Na maioria das vezes, as nossas instituições acumulam patentes, mas não possuem um caminho claro para oferecê-las ao mercado, carecendo de estratégias de marketing e de modelos dinâmicos para prospectar parcerias reais.
Ao longo dos últimos anos, trabalhando com ICTs e NITs, tenho visto uma repetição constante desse cenário: instituições com portfólios robustos, equipes qualificadas, ativos com potencial real de aplicação e, ao mesmo tempo, uma dificuldade consistente de transformar tudo isso em conexão, interesse e oportunidade.
Claro que o contexto brasileiro traz desafios estruturais relevantes, como a baixa maturidade em P&D de muitas empresas e ciclos de decisão lentos. Mas há um fator que costuma passar despercebido e que faz toda a diferença: a nossa postura predominantemente reativa na hora de fazer a conversa acontecer.
Traçar o caminho de uma tecnologia do laboratório para o mercado (technology push) é uma tarefa difícil no mundo inteiro, não só no Brasil. Os gargalos são muitos: diferença de expectativas, de timing, e de linguagem entre o mercado e a academia. Mas, do lado das ICTs, destravar parcerias começa bem antes da proteção das tecnologias. Começa no posicionamento ativo: ao se mostrar que a instituição tem condições de construir uma parceria sólida, que compreende as demandas reais do mercado e que vai considerar o timing da empresa. Menos tech push, mais construção de ambiente de confiança.
Outro ponto que aparece com frequência é a ausência de uma narrativa integrada. Muitas instituições querem dar visibilidade não só ao seu portfólio de patentes, mas também às suas competências de pesquisa, serviços e à sua infraestrutura laboratorial.
O mercado, na maioria das vezes, não está procurando uma patente isolada e estática; ele busca parceiros capazes de co-desenvolver soluções. Inclusive, pesquisei sobre isso no meu mestrado. Quando focamos apenas em listar ativos, a comunicação se fragmenta. Cada tecnologia vira um ponto desconectado, e o público externo não consegue formar uma percepção clara sobre a real capacidade de entrega da instituição.
Nem todo assunto precisa falar com todo mundo. E, na maioria dos casos, não deveria. Quando não há clareza sobre quais empresas, setores ou perfis são prioritários para cada competência da instituição, a comunicação tende a se tornar genérica. E comunicação genérica, especialmente em contextos de inovação, costuma gerar pouco engajamento real. É como tentar iniciar uma conversa sem saber com quem se quer falar.
Quando somamos todos esses fatores, o que vemos não é a ausência de tecnologia promissora, mas a falta de uma estratégia de comunicação capaz de sustentar e aproximar essas frentes do mercado. E isso muda bastante a forma como olhamos para o problema.
Se o gargalo estivesse apenas na geração de ativos, a solução seria produzir mais. Mas, na prática, muitas instituições já têm mais ativos do que conseguem comunicar. O desafio, portanto, não é gerar mais patentes, e sim organizar melhor o que já existe, manter uma presença digital atualizada e ter materiais direcionados que sustentem uma conversa inicial de negócios.
Há uma mudança de mentalidade que considero central: entender que comunicação não é uma etapa final, mas parte da própria estratégia de inovação. Não se trata de “divulgar depois que está pronto”. É preciso construir, ao longo do tempo, as condições para que as competências da sua ICT possam ser percebidas, compreendidas e conectadas ao mercado.
Ao longo do meu trabalho com ICTs como Fiocruz, UFSC, UFMG, e Unicamp, tenho visto que, quando essa estrutura começa a se formar, o impacto é claro e de fora para dentro. A pergunta que gestores e equipes de NITs e ICTs devem fazer não é se a sua instituição tem boas tecnologias. Muito provavelmente, tem. A pergunta é: como essas tecnologias e as competências tecnológicas de sua ICT estão sendo percebidas por quem está fora?
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Vanessa Sensato
Diretora de Estratégia e Inovação da Sabiá