Após 17 anos atuando na Agência de Inovação da Unicamp, onde liderei as áreas de comunicação e relações institucionais, aprendi que o maior desafio de uma universidade não é apenas produzir ciência de ponta, mas torná-la “traduzível” e acessível para o mercado.
Recentemente, tive a alegria de revisitar esse desafio em um contexto inovador. A convite da Sinova (Núcleo de Inovação Tecnológica da UFSC), a Agência Sabiá foi a responsável pelo desenvolvimento da nova Vitrine Tecnológica da UFSC. Este não foi o meu primeiro projeto do tipo – já havia participado da vitrine online na Unicamp e, pela Sabiá, da vitrine da PUC-Rio – mas o caso da UFSC trouxe especificidades que marcam um novo paradigma no setor.
A UFSC possui um portfólio robusto de cerca de 800 patentes ativas. Do ponto de vista de gestão, aqui reside um problema crônico dos NITs: o custo e o tempo necessários para criar materiais de marketing (os one-pagers e perfis tecnológicos) para centenas de ativos são proibitivos. Seria impossível, em termos de investimento, contratar uma agência para redigir e diagramar individualmente cada uma dessas tecnologias.
Para garantir autonomia, rapidez e precisão, nossa estratégia na Sabiá foi implementar o uso de Inteligência Artificial. Contudo, como lidamos com ativos sensíveis, a segurança foi nossa prioridade máxima.
Diferente do uso casual de IAs generativas, o projeto foi desenvolvido em um ambiente pago e fechado do ChatGPT, contratado pela própria universidade. Isso garante que as informações das patentes e programas de computador não sejam utilizadas para o treinamento público da ferramenta, mantendo o sigilo e a integridade da Propriedade Intelectual da UFSC durante todo o processo de automação.
Neste ambiente controlado, configuramos três “robôs” especializados:
– Redator: Um GPT projetado para fazer a redação de perfis tecnológicos (texto de uma página), para patentes a partir da carta patente ou pedido original.
– Classificador: Responsável por organizar as tecnologias em áreas predefinidas de aplicação industrial, facilitando a busca por empresas.
– Designer: Focado na criação de imagens para os materiais de marketing, vitrine e posts.
A Sabiá entregou os primeiros 100 ativos já processados por IA e a universidade segue atualizando a vitrine diariamente. Mais importante que a entrega inicial, realizamos o treinamento do time da Sinova para operar esses robôs com total independência conforme novas comunicações de invenção forem surgindo.
A nova vitrine da UFSC vai além da exposição de tecnologias protegidas: ela dá visibilidade a laboratórios, unidades Embrapii e iniciativas estudantis, conectando de forma real o ecossistema de inovação da Universidade ao setor empresarial. Convido a todos a conhecê-la: https://vitrine.sites.ufsc.br/
Para mim, este projeto foi um exercício prático de inovação. Ver a IA sendo aplicada para dar fôlego a quem faz a ponte entre a ciência e o mercado é a prova de que estamos no caminho certo para escalar a transferência de tecnologia no Brasil.
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