A palestra do Amyr Klink no último evento do Grupo NTSec foi uma surpresa muito feliz. Claro que ver de perto um cara que passou a vida no mar, deu duas voltas ao mundo, escreveu livros fascinantes e quebrou diversos recordes de navegação seria obrigatoriamente interessante.
Mas, honestamente, não esperava que fosse tão aplicável ao contexto atual.
Não achava que conversaria tão intimamente com o pânico do marketing em relação à substituição do trabalho humano por IA, à desvalorização das soluções de agências e dos SaaS.
Afinal, Amyr parece preferir ficar preso no gelo da Península Antártica a ficar numa reunião na Faria Lima. E já começou a palestra dizendo que se formou economista na USP, mas sempre achou que economia não tem nenhuma utilidade.
Logo no início, falando sobre sua infância, ele deu a primeira lição de arquitetura de sistemas; evidentemente, sem usar essa expressão.
Klink contou que, quando criança em Paraty, ouvia comentários de que a cidade havia sido mal feita. Afinal, nas marés de lua cheia, a água do mar subia e sempre invadia as ruas. Para um turista, parecia um erro de engenharia estúpido.
Mas não era erro.
Era feature.
Os portugueses sabiam que a cidade ficava suja e não havia saneamento básico na época. Então, projetaram as ruas com uma inclinação calculada para que, na maré cheia, o mar entrasse de propósito.
A água salgada invadia, lavava toda a sujeira das ruas e, na vazante, levava tudo embora, deixando a cidade limpa.
Eles não construíram diques.
Eles não lutaram contra a maré.
Eles usaram a força incontrolável da natureza para limpar a sujeira.
No marketing, ainda tem muita gente achando que a IA vai afogar nossa criatividade. Criando manifestos sobre “conteúdo 100% humano”. Colocando sacos de areia na porta das agências.
Em vez de, simplesmente, entender a cidade que precisamos construir.

Klink falou sobre o planejamento da sua travessia solitária do Atlântico a remo, em 1984. Ele tinha um problema de física básica que tirava seu sono: o barco tinha 5 metros; as ondas da Corrente de Benguela chegavam a 15 metros.
Durante meses, ele e sua equipe tentaram desenhar um barco que não virasse. A segurança, na cabeça do time, era evitar o acidente a todo custo.
Até que um engenheiro “maluco” em São Paulo olhou para o projeto e deu o conselho que salvou a vida de Amyr:
“Amyr, esqueça. A onda é maior que você.
Se você fizer um barco para não virar, a força do mar vai te quebrar no meio.
Você tem que criar um barco feito para capotar.”
Aí, eles pararam de tentar evitar o inevitável.
Projetaram um sistema de lastros onde o barco poderia girar 360 graus na água e voltar sozinho para a posição original, com o piloto dentro. O risco da capotagem deixou de ser um pesadelo e virou uma funcionalidade do projeto.
Isso, o Amyr, em 1984!
Estamos em 2026 e a gente, que vive de criatividade, muitas vezes ainda se vê olhando o tsunami de IA no horizonte e rezando para ele não chegar no cantinho em que nos escondemos.
Está na hora de construirmos os nossos barcos capotáveis.
Abrir conversas honestas com clientes, times de marketing, de produto, de vendas e começar a navegar a favor do vento.
Vejo que o medo de ser substituído tem paralisado muita gente boa. Por vezes, perdemos tempo discutindo coisas que já estão resolvidas, tais como a responsabilidade pelo que a IA gera. A IA não gera nada sem um humano por trás em algum momento. O conceito de human in the loop está bem estabelecido.
Precisamos ir em frente.
Está na hora de nós, humanos do marketing, criarmos novos modelos de trabalho resilientes, de forma colaborativa e inteligente, perdendo nosso medo de capotar o barco.
Quando Klink planejou a expedição, tinha um problema prático: a duração da viagem. Ou seja: ele não conseguiria chegar aonde queria durante o curto verão antártico. O mar congelaria e ele ficaria preso por lá.
Era inevitável.
Daí, ele criou o conceito de invernagem.
Desenhou o barco especificamente para ser espremido pelo gelo e subir, ficando pousado na superfície sólida. Ele transformou a Baía Dorian em sua cidade particular de um habitante só. E transformou o tempo imóvel em seu maior ativo.
Foi naquele tempo parado, sem navegar, que ele consertou, planejou, escreveu e viveu a Antártica de verdade.
Curiosamente, no marketing, temos dificuldade de aprender essa lição. De entender a restrição ou o desafio como um impulso criativo. É claro que o volume imenso de conteúdo, os riscos da IA e a automação podem ser vistos como um grande inverno que temos que atravessar.
Por outro lado, nos liberar da execução pode ser incrível.
É a oportunidade de olhar para os processos e repensá-los. É hora de consertar nossas velas, limpar nossos motores e nos preparar. É hora de aproveitar a invernagem.

Tamara, a filha do Amyr, certa vez pediu o barco da família emprestado para fazer uma expedição. Amyr tinha o barco. O barco estava pronto, seguro, testado. Era só entregar a chave e desejar boa sorte.
Mas ele disse um sonoro não.
“Filha, você tem que fazer a sua história.
História é uma coisa que a gente não ganha de presente.
A gente tem que escrever.”
A lógica era impecável: se ela pegasse o barco pronto, ela seria apenas passageira, não navegadora.
A recusa do pai forçou a filha a comprar um casco abandonado, reformá-lo, entender cada parafuso, lixar o convés, desenhar o sistema elétrico. Conhecer o barco (sardinha) como a si mesma. Calcular os próprios riscos.
Anos depois, ela se tornou a mulher mais jovem a cruzar a Passagem do Noroeste. Não porque o pai era o Amyr Klink, mas porque ela construiu o próprio barco.
Uma lição dura, mas bem fácil de transpor para nós, “usuários” de tecnologia.
Terceirizar o pensamento para o ChatGPT ou o Midjourney é pegar o barco emprestado. É fácil. Qualquer um faz. Mas isso não constrói diferencial. E pode custar caro quando você estiver no meio da tempestade sem saber como funciona seu próprio barco.
O verdadeiro profissional não é o usuário de IA. É o construtor de fluxos. Não espere a solução pronta. Duvide, questione. Construa sua própria metodologia. Autonomia radical é a única segurança que existe.

Sinto que, muitas vezes, estamos gastando energia demais tentando evitar as ondas, tentando secar o chão de Paraty, tentando proteger nossos cargos com muralhas de vidro.
A palestra generosa de Amyr Klink deixa clara a lição de parar de lutar contra a natureza das coisas.
A onda vai vir.
O gelo vai fechar.
A maré vai subir.
Não construa um negócio para evitar isso.
Construa um negócio capaz de dançar com o caos.
Porque, no fim das contas, estabilidade é ilusão. A única coisa real é a capacidade de capotar e voltar inteiro.
Amyr garantiu que nunca viajou para buscar adrenalina, bater recordes do Guinness ou escrever autoajuda. O objetivo dele, ao dar a volta ao mundo na Antártica, era uma obsessão técnica e quase poética: navegar milhares de milhas, enfrentar as piores tempestades do planeta e voltar para amarrar o barco exatamente no mesmo local de onde partiu em Paraty.
Não era sobre a velocidade. Era sobre a precisão de imaginar o impossível e executar com tanta maestria que ele voltava para o ponto de origem, transformado.
Nas últimas décadas, ficamos tão obcecados com performance, CAC, ROI e tagueamento, que esquecemos por que decidimos trabalhar com isso.
Quase ninguém escolhe marketing porque adora configurar API.
A gente entra nessa vida maluca para contar histórias. Para impactar vidas positivamente. Para gerar emoção, para encantar um cliente, para fazer alguém rir ou chorar com uma campanha.
E a grande oportunidade da IA está aí.
Ao automatizar o “meio” (a planilha, o post, o desdobramento), a IA nos obriga a voltar para o “fim”. Se a máquina faz o braçal, o que sobra para nós, humanos do marketing?
Sobra o propósito.
Sobra a empatia.
Sobra a capacidade de entender a dor do outro e desenhar uma solução que a máquina nem sabe que existe.
O Amyr viaja para provar que o planejamento vence o caos.
Nós trabalhamos para conectar pessoas.
Esse é o pino de ferro para onde devemos voltar e amarrar nossos barcos.